• Raquel Veríssimo

uma viagem para dentro de mim

Sou uma pessoa apaixonada por viagens. Fico encantada em conhecer outras culturas. Há alguns anos, vinha sonhando em realizar uma viagem para o continente asiático, pois queria ter contato com aqueles lugares e pessoas que vivem de forma tão diferente da nossa e nos parecem tão distantes. Por um tempo esse sonho foi adiado pois sempre estava em relacionamentos e nem cogitava a possibilidade de viajar sozinha. O que me fez mudar de ideia? Após treze anos em relacionamentos, fiquei solteira, passei por uma grande bad e comecei a efetivamente aprender a viver sozinha (eu achava que já sabia, rsrs).

A viagem começou a tomar forma a partir da possibilidade de ir para a Índia praticar yoga. Há pouco mais de cinco anos conheci essa prática e no final de 2018 comecei a dar aula, mas a Índia ainda parecia um projeto muito distante. Para ingressar no programa de estudos de ashtanga em Mysore, na Índia, é necessário fazer uma inscrição disputando vaga com pessoas do mundo inteiro. Já sabia de vários colegas que tinham tentado e não tiveram sucesso. Resolvi tentar, sem a menor expectativa de sucesso e, para a minha surpresa, alguns dias depois, recebi um e-mail com a aprovação para estudar no Sharath Yoga Centre. O frio na barriga era grande e meu primeiro pensamento foi: E AGORA?

Depois disso, o momento mais difícil foi contar para a minha mãe (rsrs), pois apesar de incentivar todos meus projetos, ela é aquela clássica mãe super preocupada. Recebi muito apoio de todos os lados, mas também apareceram algumas pessoas para me “aterrorizar”, falando de coisas desde os banheiros indianos que não têm vaso sanitário e nem utilizam papel higiênico, às dores de barriga que eu iria ter e os assédios que eu iria sofrer, dentre muitas outras questões. Apesar de tudo isso, mantive a ideia da viagem e o que de início seria um mês de estudos, se tornou uma viagem de três meses, sendo os dois primeiros na Índia e um viajando pelo Sudeste Asiático.



No planejamento da viagem, o que me encorajou foi conhecer histórias de outras mulheres que viajam sozinhas, especialmente as que viajaram para os mesmos locais. A vida inteira escutamos que somos frágeis, que precisamos nos comportar e que o mundo, seja a calçada de casa ou o outro lado do planeta, é perigoso para nós. Claro que existe algum fundamento nisso. Os numerosos casos de violência contra a mulher e feminicídio estão aí para nos mostrar que muitas vezes não estamos seguras nem mesmo dentro de casa. Ao mesmo tempo, estamos lutando contra isso e faz parte dessa luta começarmos a ocupar os espaços que fomos historicamente privadas. Ao vermos outras mulheres espalhadas pelos quatro cantos do planeta, explorando esse mundão, percebemos que é possível sim uma mulher viajar sozinha.

Apesar disso, confesso que quando o avião pousou em Mumbai, minha primeira parada, bateu aquele frio na barriga. Pegar um Uber de madrugada em um país completamente desconhecido, ainda sem ter conexão com a internet, me deixou um pouco tensa e só consegui relaxar quando cheguei ao hostel. Sim, durante essa viagem quase toda eu fiquei em albergues e, muitas vezes, em quartos mistos (e deu tudo certo). Meu primeiro desafio foi a comunicação, pois o inglês dos indianos tem um sotaque muito pesado e, até me acostumar, era muito difícil compreender o que eles estavam falando. O primeiro dia foi todo de perrengues. Dificuldade para pegar um Uber pois a rua do hostel era muito pequena, loja para comprar o SIM card fechada, pois estava saindo muito cedo para um evento de yoga, nem cogitava pegar um tuk tuk (meio de transporte comum na Ásia), pois além de ter medo, não conseguia me comunicar com o motorista. Tinha receio de andar na rua, pois todo mundo olhava pra mim. Apesar das inseguranças e dificuldades, deu tudo certo, mas só fiquei tranquila quando consegui comprar o SIM card e ter acesso livre à internet. Nos meus dois primeiros dias na Índia, tinha medo de tudo. Andava com muito medo na rua, escolhia meticulosamente onde ia comer, escovava os dentes com água filtrada e pegava somente carros ou tuk tuks através do app da Uber. Acredito que por ter optado me expor aos poucos, fui perdendo o medo e passei a andar com mais tranquilidade. Esqueci da água filtrada e passei a escovar os dentes com água da torneira, aprendi a chamar um tuk tuk no meio da rua e explicar para onde queria ir. Meu maior medo passou a ser atravessar a rua, pois sim, é verdade, trânsito na Índia é uma loucura, rsrs. Tomei coragem, fui fazer turismo e vi que é verdade que os indianos pedem para tirar foto com os turistas. A abordagem não vem apenas de homens, mas de mulheres e famílias também. O segredo é apenas dizer não e continuar andando. Se algum homem insistia, eu olhava com uma cara bem feia e falava de maneira firme. No quarto dia, eu já estava tão animada com tudo que eu estava vivendo, que desfiz a careta que estava usando como forma de proteção.



Saí de uma cidade enorme e caótica e parti para Rishikesh, um local bem menor, próximo à nascente do rio Ganges e com paisagens lindas. Um dos maiores perrengues da viagem foi nesse momento. Ao chegar no hostel escolhido, percebi que era muito diferente do exposto no Booking e aprendi que não se deve reservar dez dias de uma vez antes de conhecer o local. A porta do quarto não tinha tranca, o banheiro era péssimo, não existia um locker para guardar a bagagem e o quarto era insuportavelmente frio. Passei apenas uma noite nesse local, com medo de todo barulho que ouvia de fora. No dia seguinte, coloquei minha mochila nas costas e parti para outro hostel, esse sim, com uma ótima estrutura. Tive um prejuízo, pois paguei duas vezes, mas precisava dormir em um local que me sentisse segura.

Meu próximo destino foi Delhi. Todas as minhas pesquisas antes da viagem me indicaram essa cidade como um local perigoso para mulheres, com fortes recomendações para não sair sozinha no período da noite. Ah, e porque você resolveu ir mesmo assim? Delhi é cidade base para se explorar a região do Rajastão e Agra, cidade do Taj Mahal. Para mim era inconcebível viajar para tão longe e não realizar o sonho de conhecer um dos monumentos mais famosos do mundo. Para facilitar minha vida, resolvi investir um pouco mais e me juntei a um grupo de uma empresa chamada G Adventures para explorar a região. Ainda assim, tive um dia sozinha na cidade antes do início da viagem em grupo. Nesse dia, optei por me deslocar de metrô e conheci o famoso “vagão das mulheres”. Sim, o metrô de Delhi tem plataforma e vagão exclusivo para mulheres. É só um ou dois, pois a imensa maioria de pessoas na rua são homens (e confesso que isso assusta um pouco). Em alguns aeroportos, existe a fila dos homens e a fila das mulheres (claro que eu entrei na dos homens sem saber e fiquei nela até que alguém me avisasse que eu estava na fila errada, rsrs). A população do país é composta majoritariamente de homens e, por conta do machismo, muitas mulheres não têm o hábito de sair de casa. Inclusive, na Índia é proibido saber o sexo do bebê antes do nascimento, para evitar a realização de abortos.



Voltando ao metrô, claro que estar apenas entre mulheres dá uma maior sensação de segurança, entretanto, não posso deixar de questionar todas as falhas nesse sistema em que é necessário um vagão separado para as mulheres como uma forma de prevenir assédios. Chegando às ruas, Delhi foi a cidade em que me senti mais assediada por olhares masculinos, além de motoristas de tuk tuk tentando cobrar valores absurdos. Optei por andar o dia todo a pé e de metrô e voltei a fechar a cara para evitar os assédios. Também optei por voltar para o hotel antes do anoitecer, como forma de me resguardar. No dia seguinte, já estava com o grupo da G Adventures.


Nunca gostei de viagens em grupo, mas essa agência trabalha com grupos pequenos, era muito indicada por jovens e se posiciona no mercado como uma empresa que trabalha com turismo responsável. Isso significa apoiar comércios locais, projetos sociais e combater o turismo exploratório de pessoas e animais. Então, dentre outras experiências, visitamos um projeto que trabalha com crianças em situação de vulnerabilidade, comemos em um restaurante formado por mulheres vítimas de ataques de ácidos (sim, isso existe) e não fizemos o clássico turismo asiático exploratório de animais. Para mim, impactar positivamente na comunidade que estamos visitando é algo muito importante e, por isso, é essencial nos informarmos sobre todas as formas de evitar qualquer exploração de pessoas, animais e meio ambiente.



Ao final do primeiro mês na Índia, o que eu percebi foi que apesar da Índia ser o lugar mais diferente que já visitei na vida, tem muitas semelhanças com o Brasil. Até mesmo em relação ao assédio, que mulher anda nas nossas ruas com tranquilidade ou nunca foi assediada por um transeunte a pé, de moto ou carro?Após Delhi, segui viagem para Mysore, onde encontrei um grupo incrível de brasileiros (de vários lugares do país) e vivi um mês maravilhoso de práticas junto ao meu professor, estudos de filosofia do yoga, mantras e sânscrito. Como fiquei um mês completo nessa cidade, optei por alugar um apartamento e vivi uma rotina mais de “casa”, com todas as responsabilidades que isso traz, mas também tive a companhia de um grupo maravilhoso de amigos, com os quais vivi experiências maravilhosas e mantenho contato e compartilho estudos até hoje.



O último mês da minha viagem foi dedicado ao Sudeste Asiático, passando pela Tailândia, Laos, Cambodja e Vietnã. Mais uma vez estava sozinha, pulando de um hostel para outro. Deixei meu mochilão grande e pesado no aeroporto de Bangkok, em um depósito de bagagens (pago), e optei por viajar durante vinte e cinco dias com uma mochila pequena de 30 litros. Optei por comprar um SIM card em quase todos os países que passei, menos no Laos, onde fiquei poucos dias. Hoje em dia, considero a conexão à internet algo essencial em uma viagem sozinha, pois nos dá a segurança de poder contactar alguém em qualquer situação de ameaça, além de facilitar os deslocamentos, através do Google Maps.

Nesse último mês de viagem conheci muitos lugares incríveis, desde praias paradisíacas, templos, cidades enormes como Bangkok (Tailândia) e Hanói (Vietnã), cidades pacatas como Luang Prabang (Laos), experimentei dezenas de pratos diferentes, bebi cervejas fabricadas em cada país, explorei os mais variados meio de transporte, passando por bicicleta, ônibus, tuk tuk e Uber. Me desloquei entre os países utilizando avião, através de companhias asiáticas low cost, peguei os peculiares ônibus noturnos asiáticos, com suas “camas” esquisitas e desconfortáveis e ainda experimentei um trem noturno que viaja devagarzinho e demora muito para chegar ao destino. Conheci gente do mundo todo e percebi que viajar sozinha e se hospedar em hostels é a melhor forma de conhecer pessoas. Sempre tem alguém para puxar papo e combinar o programa do dia seguinte ou uma cervejinha de noite. Esse encontros com pessoas do mundo todo me fizeram perceber o quanto tem gente, homens e mulheres, viajando sozinho. Se eu achava que a minha viagem de três meses era longa, conheci pessoas que estavam viajando há seis meses, um ano e outros sem data para voltar para casa. Inúmeras vezes eu ouvi “vou viajar até o dinheiro acabar”. Percebi que não era louca por querer conhecer o mundo e ter ido para um lugar tão distante sozinha.



Aprendi nessa viagem que todos os dados objetivos sobre um povo, muitas vezes não significam nada perante a experiência de conhecê-lo. Li muito sobre a pobreza e falta de estrutura do Laos, mas nesse país eu tive contato com o povo mais alegre e acolhedor. Tem muita gente vivendo nesse mundão de forma simples e feliz. Nas cidades grandes, com seus enormes arranha céus, comprovei que é muito mais valioso para mim andar pelas ruazinhas cumprimentando os moradores, comer em pequenos restaurantes ou em banquinhas na rua, do que ir para restaurantes sofisticados. As comidas de rua, por sinal, são um capítulo à parte da experiência na Ásia. É possível comer bem e pagar pouco, se você estiver disposto a comer nas banquinhas da rua.


Em meio a tantas experiências, também tive dias de melancolia e saudade. Nesses momentos, ficava quieta no quarto do hostel. Uma das coisas boas de viajar sozinha é que você não precisa negociar a programação e o roteiro com ninguém. Se quer ficar no hostel fica, se quer ir pra farra, vai. Em momentos que não estava muito sociável, optava por não me vincular a ninguém, tendo também vivido experiências maravilhosas assim. Nunca vou esquecer do dia que aluguei uma bicicleta em Tam Coc (Vietnã) e pedalei 50 km, sozinha, pegando estradas e passando por paisagens lindas. Por sinal, sempre que existe a possibilidade de alugar uma bike, esse é o meu meio de transporte preferido. Fiz isso em vários lugares e um dos mais especiais foi no Cambodja, quando transitei entre os templos do complexo de Angkor Wat, sofrendo no calor (é necessário cobrir ombros e pernas para entrar nos templos), mas feliz pela liberdade. Nesse dia, o perrengue foi o celular que descarregou e tive que voltar sem GPS.

Eu não tenho dúvidas que essa viagem foi a experiência mais transformadora da minha vida. Conhecer culturas tão diversas faz com que a gente se abra para o diferente. Percebi que boa parte dos meus medos vinham de estereótipos que criamos. Alguns deles foram confirmados, mas muitos foram quebrados. Viajei com um arsenal de remédios para possíveis problemas gastrointestinais e voltei com todos intactos. Sempre soube da importância de respeitar as diferenças culturais, mas percebi que involuntariamente achamos que a nossa forma de vida é a correta e queremos impor isso para quem vive diferente. Na Índia é considerado desrespeitoso mulheres mostrarem as pernas e os ombros. Não gosto nem um pouco da ideia, mas acho importante respeitar a cultura do lugar.


Muita coisa que enxergamos como “atraso” é apenas a forma de vida das pessoas e elas são felizes assim. Por que precisamos impor o nosso modo de vida para o mundo todo? Precisamos entender que dá pra ser feliz de outra forma e respeitar toda forma de viver, religiões e hábitos culturais. Realizar sonhos é uma coisa maravilhosa. Se você sonha em conhecer o mundo e não tem companhia, lembra que nós, mulheres, podemos sim viajar sozinhas. Você não precisa ficar esperando por um namorado ou amiga(o) para viver isso. Viajar sozinha é uma experiência incrível e transformadora. Ser livre é muito bom. E vicia.


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