• gabriela soares

responsabilidade afetiva & coletiva em tempos de corona

vivemos em ritmo acelerado, pertencentes a uma cultura imediatista que pauta felicidades instantâneas e conquistas a curto prazo. e muito já se falou sobre meditação, seletividade em convívios sociais ou abandono consciente do celular e seus excessos. a verdade é que, entre jovens habituados a um ritmo intenso e rotativo, parar não é convencional. e quando parar nos é colocado como resposta efetiva ao controle de uma pandemia global, soa tão irreal quanto improvável, mas, mais ainda, absolutamente irresponsável quando não escutado – e, principalmente, posto em prática.


é preciso despir-se de preconceitos e achismos, ao passo que é também imprescindível reconhecer privilégios, como o de pertencer a uma parcela reduzida da população que pode, e deve, abster-se de sair de casa por segurança própria, mas, sobretudo, do outro.


é preciso lembrar-se de avós, vizinhos, colegas de firma ou do tiozinho que vende espigas de milho verde quentinhas todo dia às 17h30, horário em que você desce do transporte coletivo. é preciso reconhecer que nem todas as pessoas possuem excelente imunidade, ficha cardíaca em dia, bons resultados em exames clínicos, presença assídua em academias, rotina de exercício ou alimentação equilibrada. é preciso enxergar asmáticos, crianças, idosos e afins com o mesmo olhar empático que gostaria de ser visto.


é preciso desmarcar a festa de aniversário, repensar aquela viagem, abrir mão da praia mesmo em dias de sol e lidar com as saudades existentes neste período que, embora dolorosas, são também temporárias. é preciso negociar horários, rotinas de trabalho, flexibilizar atividades e, se possível, produzir e gerenciar suas responsabilidades de casa. o que torna ainda mais preciso ter disciplina, cumprir prazos e turnos e compromissos profissionais, respeitando os limites e permissividades de uma mudança como essa: trocar o trabalho tradicional pelo tão temido, aos mais tradicionais, home office. sim, ele é possível e produtivo – e é preciso confiar no comprometimento de quem o assume.


é preciso fechar-se a outras possibilidades em respeito à diarista, aos ambulantes, trabalhadores autônomos, moradores de rua e demais indivíduos em situação de vulnerabilidade social que serão, como sempre, a parcela mais afetada. é preciso contribuir: da não superlotação hospitalar à ida voluntária ao mercado pela senhorinha do apto 201 que não consegue; assim como o compromisso de levar, se possível, as contas do seu Francisco, morador do 303, ao caixa eletrônico ou aplicativo online para pagá-las.


é preciso comprar do produtor local e estimular a manutenção de renda de pequenos negócios. é preciso comer algo gostoso e sentir o cheiro de um café quentinho e abraçar seu cachorrinho e ouvir alto sua música favorita e compartilhar boas notícias ou vídeos de animais fofinhos nas redes sociais enquanto acaricia os próprios cabelos e esquece e relaxa e não pensa – por cinco minutos ou mais, acreditando que vai ficar tudo bem, que tudo vai passar.


é preciso responder a abraços e apertos de mão apenas com um sorriso, e é preciso, acima de tudo, entender que sua responsabilidade afetiva e coletiva, embora micro, poderá contribuir, em proporção macro, para um final – ou recomeço – minimamente mais saudável e feliz.


penso que vale usar o isolamento (em seu enorme privilégio) para – quem sabe? – preocupar-se um pouco mais com o corpo que temos que com a roupa que vestimos; ou mais com a vida que vivemos, em nossos múltiplos prazeres e interesses, que com aquilo que postamos ou comunicamos sobre ela; e, ainda, a aprendermos mais sobre nosso relacionamento conosco que com os outros.


em tempos de corona, e em todos os outros também, que tal experienciarmos uma maior responsabilidade sobre o outro, sobre o social, sobre nossas presenças e ausências, sobre interações e afetos? experimente fazer do trauma uma oportunidade.

crédito imagem: @sublinhando :)

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