• Ananda Costa

ouça: mulheres compositoras

Atualizado: 20 de Mai de 2019


Mulheres compositoras


Quando eu comecei a faculdade de composição musical em 2011, a onda de empoderamento feminino que vivemos hoje ainda era uma marolinha. Olhando em retrospecto, percebo que, embora já me sentisse feminista, ainda não sabia as implicações mais profundas que essa consciência traria para minha vida, nem o quanto ser feminista naturalmente mudaria minha relação com a arte e com minha profissão – compositora.


Em 2011, eu saberia listar no máximo uns cinco nomes de compositoras mulheres e não me admira que esse número fosse tão pequeno. Elas não estavam nos livros, elas não eram tocadas nos concertos, e elas também não estavam na faculdade. Eu era a única mulher de minha classe, num total de três mulheres no curso inteiro. Diziam que uma ex-aluna chegou a se graduar em composição, nos anos oitenta, mas eu também nunca a conheci e não sei seu nome.


Não me admira meu pouco conhecimento sobre essas mulheres - e até me atribuo certa dose de desinteresse -, porque de algum modo eu me sentia tão isolada naquela bolha masculina que era como se eu estivesse vivendo uma História paralela e sem precedentes. Não havia uma tradição nem cronologia modelo para mim como havia para meus colegas e professores (todos homens). Esse lugar de isolamento fazia sentir-me pioneira quando não havia pioneirismo algum; muitas mulheres antes de mim se dedicaram a essa arte e passaram por situações análogas em diferentes épocas e contextos. E o feminismo abriu meus olhos pra essa realidade: eu precisava conhecer minha cronologia histórica como compositora.


Eu não defendo de modo algum que o fazer musical seja diferente para homens e mulheres, em especial no contexto de música erudita, que é o que me cabe discutir aqui. Eu acho que a sensibilidade artística vem do mesmo lugar em cada pessoa, independente do gênero. O argumento de que a música feita por mulheres é diferente da música feita por homens é o mesmo argumento usado há séculos para apagar as mulheres (e não-brancos também, mas esse é um assunto ainda mais abrangente) da História da música e minimizar nossas contribuições. Foi o mesmo argumento que ouvi de um professor para justificar sua recusa a me ensinar. Não posso te ensinar nada porque não entendo de música de mulher. 


O que me faz compor de um jeito diferente de X ou Y é um conjunto de experiências de vida e preferências estéticas que podem estar associadas ou não ao fato de ser mulher. Associar a arte feminina a uma relação sagrada da mulher com sua natureza é também ignorar anos de estudo, experiência e dedicação em dobro aos quais nos dispomos para sermos consideradas “iguais”. Ou vai dizer que uma compositora escolhe tal acorde, tal dissonância ou uma textura específica porque a mãe natureza mandou?


Por isso, preparei essa pequena playlist com compositoras de diferentes épocas e países, na intenção de fomentar a curiosidade e a valorização dessas mulheres. O mundo da música não é, nem nunca foi, só deles.



Compositoras/composições que estão na playlist:


  • Hildegard von Bingen O rubor sanguinis

  • Elisabeth Claude Jacquet de La Guerre Sonatas

  • Francisca Caccini Ciaconna

  • Francisca Cacchini Lasciatemi qui solo

  • Isabella Leonarda Sonata duodecima em Re menor

  • Marianna Martinez Sonata em La maior

  • Ana Amália da Prússia Sonata para flauta em Fa maior

  • Anna Bon di Venezia Divertimento No. 3 em Ré menor op. 3

  • Maria Theresia von Paradis Sicilienne em Mi bemol maior

  • Maria L. Naryshkina On the Hills

  • Sophie Gail Bolleros

  • Clara Schumann Trio para Violino, Violoncelo e piano op. 17 – I. Allegro moderato

  • Sophia Maria Westenholz Morgenlied

  • Mel Bonis Carillons mystiques

  • Germaine Tailleferre Romance

  • Wanda Landowska Valsa em Mi menor

  • Chiquinha Gonzaga Sonhando

  • Ethel Smyth On the Cliffs of Cornwall (1904)

  • Lili Boulanger D'un matin de printemps (1918)

  • Nadia Boulanger Vers la vie nouvelle (1918)

  • Vitezslava Kapralova Military Sinfonietta op. 11 (1937)

  • Sofia Gubaidulina Silenzio I-III

  • Florence Price Concerto para Violino No. 1 – Andante (1939)

  • Johanna M. Beyer Music of the Spheres

  • Olga Neuwirth Vampyrotheone

  • Eunice Katunda Sonata de louvação

  • Clarisse Leita Suite Nordestina

  • Daniela Casa Fantastico

  • Delia Derbyshire Sea

  • Julia Perry Prelude

  • Jocy de Oliveira Wave Song para piano e fita

  • Laurie Spiegel Drums (1975)

  • Margaret Bonds Troubled Water

  • Esther Scliar Sonata (1977)

  • Maria Helena Rosas Fernandes Dawawa Tsawidi (2017)

  • Cibelle J. Donza Pasárgada em noites e luzes (muitas luzes) (2017)


Boa escuta :)

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