• Aïcha Figueiredo

Ocupar e resistir e brilhar


Ocupar espaços públicos com lazer é uma forma de acordar a cidade, de torná-la mais humana, viva e agradável. A praça foi concebida para ser local de encontro, de trocas, para cristalizar a essência da vida em comum no espaço urbano. É com isso em mente que o AcaraJazZ, evento de rua que já passou por diferentes praças do Centro do Rio, atua.


foto: Anette Alencar

No final de 2014, um grupo de produtores, músicos e DJs se juntou para criar um novo evento de rua. O AcaraJazZ nasceu em 30 de abril de 2015, numa véspera de feriado. De lá pra cá, foram 16 edições.


A ideia era simples: ocupar com música o Largo de São Francisco da Prainha, até então um lugar menos aproveitado que sua vizinha, a Pedra do Sal, criando um evento periódico. Além de um dos produtores ser morador da região, foi fundamental ocupar aquele espaço pensando também em envolver e incluir os moradores do local no projeto, desse modo o evento gera receita para eles e afeta positivamente o entorno. Eles também são fruto desse esforço coletivo e nos acompanham por onde quer que o evento se desloque.


Poucos sabem na prática como é trabalhoso ocupar um espaço que deveria ser de todos, sobretudo no Rio de Janeiro de hoje. Produzir um evento na rua nunca é simples, mas na gestão municipal anterior uma série de parcerias com Cdurp, Porto Maravilha e Subprefeitura do Centro e sua vontade de dinamizar a recém-inaugurada região portuária nos trouxe apoios para seguir em frente.


Com a troca de governos, ficou cada vez mais complicado ocupar os espaços. Tirar alvará, lidar com inúmeras burocracias, alugar banheiros químicos, cuidar da limpeza durante e após o evento, alugar gerador e equipamento de som são apenas alguns dos custos altíssimos que existem – e que em algum momento foram subvencionados.


O AcaraJazZ se faz na raça. É muita vontade de querer fazer acontecer. Quando falo em fazer na raça é porque em 75% das vezes botamos o bloco na rua sem capitalizar: o evento apenas se paga em infraestrutura, e grande parte dos profissionais envolvidos ficam no zero a zero. É extremamente frustrante ver que não há incentivo nenhum para estimular a realização de eventos para que as pessoas ocupem um lugar que é delas.


Tia Lúcia, considerada patrimônio imaterial do Porto e falecida em outubro de 2018, foi homenageada na edição #11. Foto: Bel Acosta

Ocupar o que é nosso com gente


Acho que não falo só por mim, como produtora, mas também pelos meus colegas* de batalha na produção, pelos DJs e pela banda: sentir o evento dando certo no dia é a parte mais gratificante dessa ralação toda. 


Ocupar o que é nosso com gente – que é pra brilhar–, música, dança, comidas, bebidas. A alegria nas fotos** não mente, são inúmeros cliques de pessoas com sorriso largo, jogando o corpo no mundo, deixando e recebendo um tanto. Ocupar a rua é nossa forma de resistir, de não entregar os pontos, apesar das condições tão adversas impostas para quem se arrisca em tal missão.


O AcaraJazZ é uma das nossas causas e não tem segredo: para continuarmos ocupando as praças do Rio, temos que ter em mente que esses lugares nos pertencem e precisamos vivê-los. Só assim esses espaços sobrevivem e com-vivem.

Seguimos, pois, como já dizia Castro Alves, a praça é do povo!




"Gente é pra brilhar!" | Foto: Anette Alencar


foto: Anette Alencar


foto: Anette Alencar






* Os colegas de batalha são: Diana Daou, David Coelho, Matias Zibecchi, Pedro Mann, Pedro Silveira, Yuri Villar, Gabriel Guenther, Ricardo Rito, Eppinghaus e Montano, Ana Dias e Marcos Quental. ** Fotos que ilustram esse post: Anette Alencar e Bel Acosta.

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