• Maria Treitler

a loja de unicórnios e o sonho nosso de cada dia


Filme “A loja de unicórnios”

Lançado na Netflix recentemente, o filme “Loja de unicórnios”, com roteiro de Samantha McIntyre, e dirigido, estrelado e produzido pela atriz Brie Larson, mistura fantasia e realidade para mostrar como a nossa incansável busca pelo “amor eterno” ainda vai destruir a nossa vida real.


Na trama, Kit (Brie Larson), é uma jovem adulta que retorna à casa dos pais após fracassar na faculdade de artes por conta de uma obsessão por unicórnios. Frustrada e perdida, a jovem tenta se adaptar a um emprego “adulto”, quando é surpreendida por um convite mágico, que lhe promete um unicórnio, caso ela se mostre digna de cuidar de um.


Mais do que a realização de um sonho de infância, possuir um unicórnio trará à Kit um amor eterno e incondicional, que mais do que nunca, a jovem precisa desesperadamente.


Ao ser expulsa da faculdade de artes pelos temas de suas obras, que expressavam sua mente infantil e colorida, Kit sente que há algo de errado com ela e que não é digna de ser respeitada como artista, ou amada por seus pais, que devem acolhê-la após falhar em seu sonho. Em nenhum momento, a jovem mostra ter qualquer tipo de relação com alguém além de seus bichinhos de pelúcia, e se fecha em seu mundo infantil e perfeito onde sonha ser amada e tratada com prestígio.


O refúgio de Kit na infância, mais do que uma busca por aceitação, é uma busca por tempo. Ela não quer encarar a sua realidade, como adulta frustrada e, principalmente, quer voltar a sentir como se sua vida estivesse apenas começando e ainda pudesse escolher o que vai ser quando crescer. Como grande parte dos millenials, Kit saiu de um mar de possibilidades e de sonhos para a pressão de definir como será a sua vida, de lidar com críticas e de descobrir que o mundo não é tão colorido assim.


Em sua jornada para adquirir o tão sonhado unicórnio, a jovem é obrigada a lidar com tudo que reforça sua postura infantil, tendo que se resolver com seus pais, interagir com outras pessoas, e se esforçar em um trabalho em que não pode incluir arco íris e brilhos. Basicamente, de uma forma genialmente contraditória, Kit precisa se tornar uma mulher madura para poder finalmente viver fechada no mundo de glitter e unicórnios que sempre sonhou, consertando suas relações interpessoais para viver o amor intenso e verdadeiro.


Ao saber o verdadeiro motivo por trás da repentina mudança de Kit, todos se voltam contra a jovem, acreditando que ela nunca vai crescer e que insiste em negar sua realidade, sem se tocarem que tudo o que ela queria o tempo todo, era apenas amor. Ela quer ser aceita com seu estilo colorido, com as purpurinas e com seus desenhos de criaturas mágicas e mundos felizes.


Geração Millenial


Kit é o retrato do millenial atual, que nos primeiros passos de sua vida adulta já sente que não tem mais tempo, que busca se agarrar em memórias de tempos felizes e precisa de um escapismo para se manter sã. Urge por amor, mas tem medo de se relacionar, não confia em si mesma, mas quer que todos a vejam como uma pessoa incrível, e busca pelas lojas algo para preencher o vazio que carrega, porque tudo seria mais fácil se pudesse ser comprado.


Desesperada pela imagem do amor eterno de cinema, Kit não consegue reconhecer o carinho que recebe de seus pais, não se sente digna do amor romântico do amigo, ao mesmo tempo que acha que merece mais do que recebe.


A fantasia é importante, a esperança de que há algo maior do que nós, de que as coisas não acabam, são preciosas para nos acalentar em tempos sombrios. Porém, ao mesmo tempo, nos afastam de algo muito melhor do que qualquer sonho e motivação: o amor puro, real, forte e marcante.


Através de uma mulher que ainda não cresceu, situações improváveis e muita purpurina, “A loja de unicórnios” traz uma reflexão sobre como nossa obsessão em alcançar tudo o que é mostrado pela mídia nos impede de viver uma felicidade verdadeira.


Como nossa geração se tornou um grupo de pessoas introvertidas, medrosas e fracassadas e, mais do que tudo, porque é tão necessário termos sonhos, pensarmos colorido e acreditarmos que a fantasia é real e possível.

E sim, tudo seria mais fácil se pudéssemos comprar realizações em lojas, no entanto, provavelmente viriam com pouca garantia.

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