• Lorena Portela

tudo que está aí guardado também precisa de cura

Atualizado: Mai 20



"Eu queria de ter tido a coragem de expressar meus sentimentos". Em 2012, a enfermeira australiana Bronnie Ware publicou um livro, fruto de muitos anos de escuta, sobre os cinco maiores arrependimentos da vida de pacientes em estado terminal. Dentre os previsíveis - e importantes - "queria ter trabalhado menos" e "queria ter me importado menos com o que os outros pensam", um veio à tona neste período de isolamento, que é justamente a frase que comecei esse texto aqui.


Não é de hoje que sabemos que a nossa saúde emocional e mental têm um impacto real na nossa saúde física. Cérebro e coração andam ali, interligados, garantindo que o nosso corpo funcione a contento. Não à toa, a mesma enfermeira diz que muitos pacientes desenvolvem outras doenças por conta de ressentimentos e amarguras.

A forma com a qual (não) lidamos com o que sentimos já era algo a se cuidar quando nossa vida estava "normal". Quando tínhamos livre demanda de amigos, festas, abraços, parque, praia, cinema, trabalho, sexo, entretenimento, e essa distração que limita nosso olhar interno com mais profundidade. Agora, imagina o impacto que esse monte de sentimento enterrado tem hoje, durante uma pandemia que te obrigou a estar sozinha, a encarar a ti mesma e a sentenciar que agora é tu, e não o outro, teu próprio deus e teu próprio diabo.

Tem outro dado observado por profissionais de saúde em relação a pacientes que estão se despedindo. Em vídeo disponível no YouTube, a médica brasileira Ana Cláudia Arantes comentou os cinco pontos observados por Bronnie e destacou, mais ou menos com essas palavras: "Qualquer pessoa, por pior que seja, começa a demonstrar no fim da vida o que tem de bom. E muitas vezes esse bom vem na forma de demonstrar afeto". Quando não nos resta mais nada, não há tempo para gastar com ressentimento.

Portanto, pensemos aqui: lá fora, a comunidade científica do mundo inteiro corre contra o tempo para conter o caos da Covid-19, essa doença tão desconhecida quanto letal. E nós, o que estamos fazendo paradas, sem pelo menos tentar curar, com verdade e com afeto, essa bagunça encoberta aqui dentro?

Pega o telefone, liga para o teu pai. Conta os motivos que levaram vocês dois a se distanciar (não estamos falando do lockdown aqui, ok?). Aproveita e deixa ele saber que, apesar disso, o apoio dele naquele momento decisivo da tua vida foi muito importante. Liga pra tua mãe, ou pra tua tia, irmã ou avó. Diz que apesar dela não te conhecer mais como quando você tinha 8 anos, hoje você enxerga que ela é uma mulher cheia de dores e que entende as decisões que ela tomou que te fizeram sofrer.


Abre aquela janela esquecida no Whatsapp, diz que continua magoada, mas que está pronta para perdoar, apenas porque perdoar é melhor do que viver mal. Apenas porque, de fato, ser feliz é melhor do que ter razão. Escreve um e-mail para o teu ex-chefe escroto (não estou falando de escrotidão do nível crime, ok? Esses devem ser resolvidos com denúncia mesmo). Diz o quanto ele te fez mal. Fala pra ele não repetir o que fez contigo com mais ninguém.

Pede perdão, cara. Descobre a força que é reconhecer teus erros. Quantos espelhos tu vai evitar até se dar conta que a tua consciência pesando no travesseiro é tua própria Santa Inquisição? Quando tu vai poder andar de cabeça erguida de novo, sem ter vergonha de olhar no olho de ninguém? Percebe que teu orgulho te impede de ser feliz? Põe fim a essa relacionamento que te enfraquece, que tu mantém como aquela TV que a gente deixa ligada só para sentir que não está sozinha em casa. Uma presença fantasma que, no fundo, só nos deixa mais cientes da solidão. Diz que está indo embora porque deixar uma relação oca é um ato de amor. Abre caminho para amar outras pessoas.

Aproveita aquela sequência de curtidas no Instagram e manda a real, balela de curtida. Fala umas breguices, tá liberado. Diz que não vê a hora do lockdown acabar para vocês darem uns beijos ouvindo Belchior. "Meu coração selvagem tem essa pressa de viver". Manda mensagem para a tua amiga, diz que está com saudade, que uma discussão estúpida nem deveria ter tomado a proporção que tomou. Não alimenta a distância, já basta a falta de abraço. Escreve uma carta de desamor para alguém que te deixou na merda. Diz que está curada, que está livre. Que hoje, trancada em casa, sem poder sair, tu está livre livre porque falou em voz alta ou escreveu tanta coisa que te encarcerava.

Não é sobre condescendência, nem cristianismo, nem ser trouxa. Esquece a ideia de que abrir teu coração é besteira. Não é. A gente tem coração é pra usar mesmo. Abre mão dessa viagem ególatra, desse endeusamento da tua própria imagem, dessa prisão narcisista na tua própria dor e permite a cura de simplesmente falar. Essa transformação que começa em dizer o que sente. Não deixa o "queria ter tido a coragem de expressar meus sentimentos" fazer parte da tua lista de arrependimentos no futuro. Muito menos no agora, que é só o que temos. Nem deixa o afeto para depois.

Depois quando? Está esperando o quê? O fim da vida? Pois aqui vai a boa notícia: game over. Olha ao teu redor, tudo isso que estamos vivendo. A vida, como a conhecíamos, já acabou. Então vai lá, deixa teu ego, teu ressentimento, teu medo, tua vergonha e renasce. Recomeça. Foto: Anna Shvets no Pexels

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