• cibellyschaves

todo artista é assim?

Umas das minhas primeiras lembranças de infância é de uma madrugada, no meio da semana, em que acordei escondida para poder pintar no meu caderninho. Lembro exatamente da paz que senti quando pude transferir minhas ideias para o papel. Mas, apesar de tudo, esse não era o sentimento mais forte. A partir desse dia, percebi que minha cabeça não funcionava em uma produção rotineira, os insights não tinham hora nem lugar.



À medida que cresci, fui me definindo como artista nesse mundo. Era o plano perfeito: trabalhar com o que você ama! Entrei pra faculdade e respirava arte. Até que começaram as cadeiras de planejamento, gestão, administração. Eu precisava falar com pessoas? Produzir em prazos impraticáveis? Dá pra produzir arte no meio do caos que é o capitalismo moderno? Como as pessoas conseguem viver assim?



Até esse momento, eram só dúvidas de qualquer artista. Logo depois comecei a me perguntar se o mercado iria aceitar uma pessoa neurodivergente. Não somente o mercado, mas, as equipes, os recursos humanos, os líderes estão preparados para receber pessoas cuja a configuração neurológica difere do que a sociedade considera padrão? Não queria ser excluída antes mesmo de verem meu potencial. Já foram anos ensaiando como escrever e falar corretamente sem perceberem que tenho dislexia. Agora eu precisava ensaiar como eu iria parecer “normal”.


Eu tenho um jeito muito particular de ver as cores e isso é muito notável em tudo o que eu faço. Compreendi com um diferencial; um poder. Em contraponto, tenho dias de baixa. Às vezes uma simples socialização pode ser dolorosa. E esses dias podem calhar em uma reunião importante com um cliente. Longe de mim querer romantizar, mas o processo de se conhecer e validar, depois de tanto tempo mascarando, é libertador. Não me anular e perceber que isso faz parte de quem eu sou, da forma como eu lido e encaro a vida. Pode não ser a forma comum. Pode não ser a forma esperada. Mas é a minha forma não linear que tem funcionado pra mim, e isso é algo a ser exaltado.




Nos últimos anos eu venho fazendo as pazes comigo. Pra ser sincera, soltei gritinhos quando li que recentemente autismo, TDAH e outras neurodivergências foram agrupadas como Transtorno de Neurodesenvolvimento na última atualização da CID-11. Sem mesmo perceber, estava me reconhecendo como neuroatípica. Apesar de vivermos em um sistema capacitista que nos torna invisíveis, a partir do momento que pude me reconhecer assim, conheci pessoas como eu. E isso é maravilhoso! Pessoas dispostas a debater sobre isso transformam os ambientes de trabalho em lugares mais diversos. O mundo está cheio de trabalhos fantásticos, de narrativas e abordagens que vão além da nossa definição binária e limitada.


Ainda será uma longa trajetória de autoconhecimento. Hoje eu falo com muito orgulho: eu adoro ser esquisita, e sim, minha cabeça funciona diferente, mas você já viu como meu trabalho é massa?