• Sofia Costa

qual a frequência que você diz “não”?

Minha primeira palavra na vida foi “Não”. Minha mãe conta que foi um "não" falado, um gesto com a cabeça e uma cara feia. Tudo porque eu não queria mais uma pessoa colocando a mão em mim. Ainda bebê, e eu já impunha limites. Meus primeiros dois anos de vida foram repletos de “Nãos” e de colocar distância entre as pessoas e meu espaço pessoal.


A maior parte das crianças tem uma grande facilidade em dizer “Não”: “não quero isso”, “não me encosta”, “agora não dá, amigo”, “não consigo”. Como perdemos essa habilidade? Criamos medo em magoar pessoas, em dizer o que pensamos e afastar amigos, família. Mas são muitas as vezes que nos ferimos no processo: a nós mesmos, quando deixamos de nos cuidar, de termos tempo para si ou até por deixarmos de fazer algo que queríamos muito; e nas nossas relações, quando não temos um retorno na mesma medida e ficamos magoados.


É desafiador conseguir fazer uma mudança e começar a impor limites. Foi só com 24 anos, depois de um coração partido e uma tentativa falha de criar uma empresa, que eu comecei a reparar a ausência do “Não” e o excesso de “Sim” na minha vida, e entender a dificuldade que a maioria de nós têm de se colocar em primeiro lugar. Esse comportamento pode ser entendido como o medo que sai da gente em forma de “Sim” para tudo e todos, com o objetivo de sermos amados, de manter as pessoas ao redor satisfeitas e felizes, e assim, por perto. Mas será que queremos manter alguém perto somente por tudo que oferecemos, sem sermos valorizados e respeitados?


Dizer “sim” a todo instante faz com que o outro entenda que “damos conta de tudo”, e que “estamos sempre disponíveis”. De repente, você está ficando até tarde trabalhando todos os dias, nunca tem tempo para se exercitar, ou se desdobra em mil durante o final de semana para cuidar da sua avó doente, enquanto ajuda seu amigo a se mudar, dá um oi pro seu namorado(a), e chega no domingo exausta(o), sem ter tido tempo pra você. 

O “não” é muito mais que uma palavra, é uma metáfora para todas as vezes que de alguma forma você impõe seus limites, seja para família, amigos, na sua relação amorosa ou no seu trabalho. É dizer “não quero fazer esse programa”, “não é tarefa minha”, “não tenho tempo porque preciso cuidar de mim”. O poder de dizer “não” traz autonomia, autoconfiança, e amor próprio. Como isso acontece? Quando você escolhe você em primeiro lugar, sua saúde física, emocional, mental acima de todo o restante. Parece simples, mas aprendi que é uma das coisas mais difíceis de colocar em prática para a maioria de nós.


Mas, e se, ao invés das pessoas ao redor jogarem tudo nas nossas mãos e ficarmos sobrecarregados porque “damos conta”, que tal se elas entenderem que você tem amor próprio forte o suficiente para dizer o famoso “não”? Será que você pode ser um exemplo para aquela pessoa que você ama também cuidar mais dela ao ver que você está cuidando mais de você? Será que você pode acabar abrindo espaço para receber demonstrações de carinho ou convites inesperados daquelas pessoas que você tanto queria? Será que as pessoas no seu trabalho podem começar a pedir de você o que realmente você faz ao invés de jogarem tudo que é tarefa no seu colo? Quando nos amamos, abrimos espaço para que os outros nos amem também. Quando nos valorizamos, permitimos que os outros também nos valorizem. No final do dia, tudo se resume a como você cuida de você. 

Depois de aprender muito com a prática da Yoga e no campo do desenvolvimento pessoal, percebi que ao dizer “Não” é possível manter a sua integridade emocional ao ser fiel consigo mesma(o). Ao dizer “Não”, de diferentes formas, permitimos que os outros entendam que temos limites, temos um tempo que têm seu valor e passamos a ter mais respeito de todos ao nosso redor.


Claro que você vai perder pessoas no caminho, o que dói. Mas você acaba se surpreendendo com quem fica, com a demonstração inesperada de outras pessoas. E assim, você vai aprendendo quem são seus verdadeiros amigos, qual trabalho te valoriza, quem te respeita mesmo você dizendo aquele “não”.


Quando aprendemos a estabelecer nossos limites podemos ficar meio radicais no início, mas lembre que não é para ficar completamente indisponível, irredutível e dizer “não” para tudo. Leva um tempo para aprender a medir quando você precisa do espaço e deve se colocar como prioridade. 


Dizer “não” é muito mais que só impor limites, é autocuidado, é a forma mais eficaz e saudável de aprender a receber amor e sempre se dar valor. Nosso valor quem decide somos nós mesmas. E aí, as pessoas ao redor também percebem.


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