• Caroline D'Ávila

prestô bem atenção?

Atualizado: 24 de Mai de 2019


Acho que o desafio de criar conteúdo nessa era digital nos coloca diante de uma grande encruzilhada, sabe por quê? Porque, como dizem algumas línguas por aí, de boa intenção o inferno está cheio. O que quero dizer com isso não é nenhuma novidade.


A era digital da vida guiada por aplicativos e gerenciada pela internet não só nos bombardeia com uma quantidade excessiva de estímulos e informações, mas também consome algo da maior importância: nossa atenção.

Hoje, vemos a internet oferecer variados serviços em troca de nossos dados pessoais. E mais, vemos o marketing digital utilizar engenhosamente nossos dados pra direcionar e personalizar suas propagandas. Na verdade, e ainda um pouco pior, vemos sites de redes sociais manipular técnicas behavioristas e desenvolver vícios em seus usuários, como dizia uma matéria que li no “El País” semana passada. Ou seja, cada passe desse jogo colossal arremata o domínio das tecnologias da comunicação sobre o que ela mesma chama de “a indústria da atenção”. E cada vez mais nossa percepção é dominada por interesses econômicos.


Há quem diga, inclusive, que a atenção está se tornando um dos recursos mais escassos da nossa era econômica. Eu mesma poderia ser uma dessas pessoas. Mas, veja bem, há também quem – com mais propriedade do que eu – já tenha nos alertado sobre este caos da informação e do conteúdo que nos cerca desde quando era a televisão – e não a internet – que despontava no horizonte.


É o caso de Herbert Simon, economista e pesquisador de múltiplos campos, que em 1978 ganhou o prêmio Nobel de economia por defender que:


“A informação consome a atenção. E, portanto, uma riqueza de informação cria uma pobreza de atenção”.

Certamente, os estudos críticos desse entrelaçamento entre tecnologia, comunicação e atenção não pararam por aí, mas, por hora, vamos deixar dados e estatísticas nas mãos daqueles que podem discutir o assunto sem vacilar e tratar de mudar um pouco o rumo desse dizer panfletário pouco esperançoso. Longe disso está minha intenção.


Sem denúncias rasas e sem hipocrisia


Não nego que acredito na abertura que a internet provoca na circulação da informação e do conhecimento – esse texto, inclusive, não seria o que é sem pesquisas na rede.


E essa é a encruzilhada: diante de tantas possibilidades, constantemente precisamos reafirmar escolhas que definem o que queremos ou no que cremos. No fim das contas, é a gente com a gente, é como desenvolvemos nossa capacidade de perceber, é como escolhemos em que movimento aplicar nossa energia. Mas será que percebemos quando temos nossa atenção monopolizada por fatores externos que nos atravessam feito turbilhões?


Me percebo querendo saber no que estou atenta e me pergunto, o que é a atenção, afinal? Procuro em minha rede – formada por leituras, pesquisas, escutas, encontros e tantas outras (grandes e pequenas) coisas – quais fios devo puxar para tecer uma boa resposta.


De cara, encontro a força e o pensamento de três mulheres incríveis, cada qual chamando a atenção de um modo diferente.



Simone Weill



Uma dessas damas da inspiração é Simone Weill, escritora e filosofa francesa de origem judia que viveu entre 1909 e 1943. Ela foi uma das primeiras mulheres a estudar na École Normale Supérieure (antes mesmo de Simone de Beauvoir), mas, para o nosso azar, suas ideias não receberam a atenção que mereciam.


Alguns supõem que essa recusa ao seu pensamento é em resposta ao seu posicionamento radical – tão radical que foi capaz de fazer um voto de fome mesmo com a saúde fragilizada e acabou morrendo precocemente aos 34 anos – e a seu interesse por certos princípios anarquistas. Vai saber!


O que eu sei é que foi lendo seus textos que percebi que nossa capacidade de atenção é um exercício de enfrentamento do mundo. Estar atento quer dizer ter a possibilidade de permanecer com algo ou de durar numa ação.


Nossa atenção define nossa relação com o tempo. Nossa atenção nos conecta ao mundo. Mais ainda, nossa atenção é a forma como tornamos o mundo suportável. E é também o que nos faz ver o que há para ver, aquilo que sempre esteve ao nosso lado e nem nos demos conta. Mas ter atenção não é apenas ter olhos pra ver e ouvidos pra escutar. Ter atenção é ter silencio na alma pra perceber os pequenos acontecimentos silenciosos ao redor de tudo. Sim, sim, a atenção toca a boca do mistério.


Quer descobrir? Então escuta a eterna mensagem que vem na voz rasgada de outra mulher radical, nossa diva Gal Costa.


Gal Costa


Aos 19 anos, a soteropolitana balconista de loja de discos despontou nos palcos como um doce bárbaro e nunca mais parou. Sua voz arrepiou, arrasou, profanou, inspirou, deu sorte...



Deu vida ao “Divino Maravilhoso” sinal de alerta que Gil e Caetano compuseram em 1968, mesmo ano em que Gal interpretou a canção no palco do festival de música popular brasileira da TV Record, e que recebeu do júri especial o 3° lugar. Vale dizer, o clima aqui no Brasil não andava nada bom e essa foi a última edição do evento antes de ser decretado o AI-5. De modo que o aviso nos chega desde lá até aqui - nesse tempo que também não anda nada bom.


Precisamos estar atentos, fortes, com os olhos firmes e sem temer coisa alguma, pois estar atento quer dizer viver superando o medo. O que precisamos é receber o mistério que “sempre há de pintar por aí” como uma alegria inesperada na qual tropeçamos ao dobrar uma esquina.


Nossa capacidade de atenção é isso: um estado de abertura, um deixar-se disponível ao acaso. Preservar o misterioso, esperar sem nada buscar. Esvaziar-se das expectativas. Esvaziar-se de todo conteúdo próprio e de todo julgamento para receber o outro em toda a sua verdade.


A atenção é aprender a manter um lugar vazio no pensamento.

A atenção é um gesto de amor e de estrega, é um ato destinado ao outro.



Marguerite Duras



E pra terminar essa conversa toda, a ultima lição me chegou inesperadamente enquanto escrevia. Não é só desse encontro inusitado que admiro esta mulher, já nos encontramos antes, eu e Marguerite Duras, a francesa da Cochinchina, orgulhosa com as histórias de seus amantes orientais.


Aos 18 anos mudou-se para Paris. Estudou direito, matemática e ciências políticas e, no fim, escolheu viver como escritora, roteirista, diretora de cinema e dramaturga. Vivendo sempre próxima dos movimentos de contracultura (do cinema da nouvelle vague, do maio de 68 francês, dos filósofos ditos de esquerda e do partido comunista) o pensamento de Duras se movimenta seguindo outra economia – a economia do desejo.


Ela tenta chamar atenção para outras coisas e de outras formas, fazendo girar outras camadas de nossos devires. Assim, Duras nos ensina que atenção é ver e viver ao mesmo tempo e que isso tem a ver com ser intenso e estar presente.


Mesmo seguindo a contracorrente de qualquer pensamento voltado a um parecer financeiro, ela confirma a opinião de Herbert ao imaginar, em 1985, como seria a vida nos anos 2000. Diz categoricamente que acredita que o homem será afogado na informação...


“uma informação constante sobre seu corpo, sobre seu desenvolvimento, sobre sua saúde, sobre sua vida familiar, sobre seu salário, sobre seu lazer.”

Seria a previsão de um pesadelo sem fim, sem pessoas para ler as mensagens que estaria espalhadas por todos os lugares, mas é apenas um olhar realista que vê mais de um lado, e que termina com uma respiração profunda e um sussurro...


“de qualquer maneira, permanecerá o mar, os oceanos e depois a leitura. As pessoas vão redescobrir isso. Um homem, um dia, lerá e então tudo começará novamente.”

E se essas redescobertas serão eternamente encruzilhadas decisivas, que a gente possa aceitar o desafio e escolher não trocar leituras que nos movimentam por horas e horas navegando no mar da informação sem atenção.


Sejamos bons marinheiros e façamos da navegação um ato preciso e precioso.

Atento e forte.

Avante.


Obs.:

Para quem quiser se derreter com a voz da Gal cantando “Divino Maravilhoso”, aumente o som.


e para quem quiser ouvir atento – treinando o francês – Duras e sua previsão para os anos 2000.

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