• Raíssa Veloso

Meu pai descobriu os áudios do WhatsApp, Bolsonaro foi eleito

Atualizado: 26 de Mai de 2019


Dias desses percebi que meu pai havia aprendido a usar a função de áudio do WhatsApp. Descobri isso porque me dei conta que ele tem um novo hábito de reproduzir em alto e bom som as mensagens que recebe e também as que envia – talvez para conferir aquele estilo novo de comunicação instantânea que não precisa de alô.


Notei que ele incorporou isso na própria comunicação pessoal no mesmo período em que Bolsonaro tentava se eleger presidente. Embora o estabelecimento dessa conexão sensacionalista – meu pai passou a mandar áudios no WhatsApp, Bolsonaro foi eleito – me tenha surgido de forma imediata, as conclusões que tenho tentado articular a partir daí não podem ser feitas de forma apressada. Por isso mesmo, já adianto que não sei em quem meu pai votou naquelas eleições de outubro de 2018 e peço um pouco de paciência para explicar o raciocínio que proponho a seguir.


Se não posso afirmar que meu pai conduziu a vitória do "mito" a partir da própria iniciação ao universo dos áudios virtuais, é fato que há mais de um ano ele havia sido incluído em grupos criados na plataforma para disseminação de narrativas de ódio à esquerda, sobretudo ao partido do ex-presidente Lula.


Uma estratégia que já estava anunciada meses antes da votação e que surpreendentemente a maior parte do campo progressista organizado no Brasil não conseguiu perceber com antecedência, tampouco tem aprofundado uma avaliação sobre a razão de ter “perdido de lavada” na disputa do debate público pelas redes na internet. Meu pai passou a estar mais no celular porque estava especialmente mais atento ao WhatsApp.


Quando comecei a participar de campanhas eleitorais, em 2012, as redes sociais no ambiente online ainda eram plataformas ocupadas majoritariamente por jovens, muitos dos quais nem tinha idade suficiente para depositar o voto em um candidato.


Naquele período, construindo uma campanha à Prefeitura de Fortaleza, conseguimos com uma pequena equipe de comunicação e uma ampla rede de colaboração voluntária – o que hoje é impossível conceber por tamanha importância estratégica que essas plataformas assumiram – destacar a candidatura majoritária em todas as principais plataformas do momento, como Facebook, Twitter, Youtube, Flickr e até SoundCloud.


As interações se davam sobretudo pelo público que mais se identificava com a campanha: os jovens. Milhares de compartilhamentos diários, engajamento orgânico e captura de atenção sem desembolsar nenhum tostão às empresas.


Cenário completamente diferente foi sendo desenhado nas últimas eleições. A cada dois anos ficava mais escancarado que nosso amadorismo não estava mais dando conta de ocupar as redes na internet de forma satisfatória. Além da maior visibilidade que nossas candidaturas assumiam no cenário local e exigiam de agendamento de conteúdo, era nítido a "profissionalização" do trabalho e o mergulho cada vez mais profundo na teia dos algoritmos.


Não bastava mais conciliar o sentimento do momento com o espírito que a plataforma exigia. Muitas perguntas passaram a me acompanhar sobre como a esquerda estava incidindo nos ambientes online e por que a sensação a cada eleição era de uma derrota mais acentuada – ainda que nada comparável ao que sentiríamos em 2018.


Com a ascensão do Instagram e do WhatsApp, o Facebook passou a ser dono de três das cinco maiores redes sociais na internet, e novos desafios foram colocados, como a centralização de informações de bilhões de pessoas por pouquíssimas corporações, a finalidade deste banco de dados e a capacidade de incidir sobre o comportamento das redes.


Questões que ainda são vistas por boa parte da esquerda como "secundárias" tornaram-se em poucos anos centrais para especialistas políticos, já que passou a estar em debate o futuro da própria democracia. A eleição de Trump nos Estados Unidos, em 2016, por exemplo, evidenciou como o uso de informações de mais de 50 milhões de usuários poderia favorecer não só uma estratégia comercial, mas também o destino da política institucional.


Bolsonaro e WhatsApp


Sobre Bolsonaro e WhatsApp no Brasil, parece que virou um mero detalhe na agitada conjuntura política a investigação que aponta gastos da ordem de 12 milhões de reais em disparos de notícias falsas. Por isso mesmo, o debate sobre a ocupação política das redes sociais na internet não pode ser feito pela esquerda com ingenuidade e desconhecimento, como se a disputa estivesse sendo travada entre agentes que dispõem de igualdade de condições.


Investimentos colossais em "aprendizado de máquina", políticas de uso de dados e o conceito de "modulação" são temas discutidos no livro recém-lançado "A sociedade de controle: manipulação e modulação nas redes sociais" (Editora Hedra), organizado por Joyce Souza, Rodolfo Avelino e Sérgio Amadeu.


Como propõe Evgeny Morozov, através das palavras de Rafael Zanatta,

"é preciso pensar no que de pior pode acontecer".

As pesquisas sobre tecnologia da informação não tratam de ficção científica em cenários distópicos e o horizonte do debate sobre como ocupar as plataformas online e disputar a política de dados aponta para a defesa da própria democracia.


Para deixar a ingenuidade e o desconhecimento de lado é fundamental que aqueles e aquelas que não acreditam em saídas fundamentalistas para as crises (inclusive na crença do mercado total) vejam que é urgente entender o funcionamento das redes sociais na internet e disputar criativamente a ocupação desses espaços.

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