• Julia Casotti

mercado 2022: trabalho presencial, remoto ou híbrido?



Se você pudesse escolher, trabalharia de forma presencial, remota ou híbrida? Em 2022, com as mudanças que vivenciamos de diferentes formas durante a pandemia, essa é uma pergunta recorrente que vem dando o que falar em pesquisas Brasil afora, nos burburinhos entre as profissionais de escritórios de grandes, médias e pequenas empresas - principalmente nos espaços em que a internet domina o fazer-criar.


Como posso otimizar meu tempo? Essa reunião precisa de todo esse deslocamento? Aliás, esse tema precisa de reunião ou apenas uma ligação telefônica ou troca de e-mails resolveria?


A jornalista da Fiocruz Ana Claudia Peres precisou se adaptar e lidar com o trabalho remoto durante a pandemia. Estranho, né? Porque sua principal ferramenta de trabalho era a rua, a redação, sair de casa e ver a cidade acontecer. Para ela, trabalhar dentro de casa parecia complicado e fez com que ela se sentisse doando mais horas do dia à carreira profissional, com entrevistas aos domingos e lives aos sábados.


"Aprendi a reinventar uma rua, desenvolvendo alteridades, empatias. Me relacionar com esse outro por meio de entrevistas, acompanhar notícias, produzir notícias, encontrar caminhos, bem estar para lidar com tudo isso. Foi difícil, mas eu costumava reconhecer o privilégio de trabalhar de casa com internet, comida na geladeira, sem perder ninguém da família com Covid", explica.


Para Ana, há algo que não se perde que deve ser os "vai e vens", as voltas do mundo em meio ao caos. "Acho que tem a ver com procurar um equilíbrio com coisas que nos apaixonem dentro e fora de casa, com desafios que são colocados pra gente profissionalmente, afetivamente. Espero que a gente consiga".


Pesquisas, tendências e privilégios


São tantos "vai e vens" que uma pesquisa recente da Microsoft sobre as tendências no trabalho em 2022, apontou que 58% dos brasileiros preferem mudar para o trabalho híbrido ou totalmente remoto. Com participação de 31 mil pessoas em 31 países diferentes, a pesquisa revela as características mais importantes para os trabalhadores hoje, como benefícios de saúde mental e bem-estar (42%) e horário flexível (38%).


Inclusive, segundo levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), cerca de 20,4 milhões de trabalhadores estão em ocupações que podem ser realizadas na modalidade de home office. O que representa 24,1% do total de pessoas ocupadas no mercado de trabalho brasileiro, ou seja, um privilégio. Visto que o trabalho remoto predomina entre pessoas brancas (60%), com nível superior completo (62,6%), mulheres (58,3%) e na faixa etária entre 20 e 49 anos (71,8%).


Mais da metade desses trabalhadores em home office está na região Sudeste (27,7%), seguida pela região Sul (25,7%) e Centro-Oeste (23,5%). Nas regiões Nordeste e Norte, o movimento é inferior, respectivamente, de 18,5% e 17,4%.


Desconfianças e terreno frágil


Encarando o novo cenário desses 20,4 milhões de trabalhadores, no dia 25 de março de 2022, foi publicada a nova MP do teletrabalho, em que o home office e o trabalho híbrido ganham amparo legal. Com isso, novas regras surgiram, trazendo novos direitos e deveres para colaboradores e empregadores.


A principal mudança se dá pela redação do seguinte artigo:


Art. 75-B. Considera-se teletrabalho ou trabalho remoto a prestação de serviços fora das dependências do empregador, de maneira preponderante ou não, com a utilização de tecnologias de informação e de comunicação, que, por sua natureza, não se configure como trabalho externo.

Amparos legais começam a trazer contornos de segurança para quem está no mercado. A designer e ilustradora do #timepurpurina Cibelly Chaves atravessou momentos difíceis em torno de desconfianças dos chefes, que apontavam o trabalho remoto como menos produtivo.


"Com uma semana no novo trabalho, foi decretado o lockdown, sendo uma experiência muito difícil. Porque no Brasil, falando daqui de Fortaleza, se tem uma ideia de que o trabalho remoto não é produtivo. Apesar de que sim, é difícil ser produtivo num período em que as pessoas estão morrendo, o fator psicológico pesava. Após 6 meses remoto, ficávamos indo e voltando por conta dos novos decretos, o que gerava uma desconfiança, como se a gente quisesse um trabalho mais fácil. Mas como eu morava super longe do trabalho, isso fazia com que tivesse uma qualidade de vida bem melhor", explica.


Quando decretaram retorno 100% presencial, Cibelly desenvolveu uma fobia social e pediu demissão. Felizmente se estabeleceu em uma empresa que já prestava serviços desde 2015, e que usava diversas ferramentas para ter um escritório 100% virtual e funcional.


Como deixar o trabalho remoto mais saudável?


A jornalista Gabriela Leal, especialista em UX writing do #timepurpurina, também trabalha remoto desde março de 2020 - ainda que esteja aberta a trabalhos híbridos e/ou presenciais. No início, passou um ano e meio trabalhando na mesa de jantar, com ergonomia prejudicada. Depois, começou a fazer investimentos no espaço: comprou a tal da cadeira gamer (não tão bonita, mas superfuncional) e criou uma organização melhor com hora pra entrar e hora pra sair - mesmo dentro de casa.


"Para mim, procurar manter a disciplina e realizar alguns rituais fazem a diferença. Evitar ficar de pijama, mesmo que seja uma roupa de casa, evitar fazer refeições onde você trabalha, respeitar pausas para esticar as pernas, tomar um café. Acho bem importante estabelecer esse espaço pra não tornar a rotina uma bola de neve", defende.


Outro ponto que Gabriela acha interessante observar: "Personalizar de alguma forma seu ambiente de trabalho, trazer elementos estimulantes para sua mesa, procurando manter aquele espaço organizado, mas de uma forma inspiradora. Claro que para calibrar e ajustar isso leva um tempo, cada um respeitando o seu".