• Letícia Bernardo

ir pra trás para ir pra frente

mais de 110 dias em casa. já teve pão, yoga, tai chi, bolo e horas a fio no video game. acostumei a dizer que todos os dias são iguais, mas, na verdade, em cada um deles eu não era mais a mesma. 


e de repente, no meio desses dias que parecem os mesmos, me deparei com uma queda enorme na minha vontade de produzir. produzir para mim mesma, para ser mais exata. vi as ideias se acumulando na minha cabeça cada vez mais enquanto a chama que habita em mim ia enfraquecendo na mesma medida.





e foi batendo aquele desespero inicial, uma cobrança interna para tirar essas ideias do papel, para aprender uma nova técnica, para se atualizar, para participar dessa ou daquela hashtag nas redes. quando dei por mim, estava me colocando tanta pressão sem perceber que acabei abafando ainda mais o meu fogo interno. o mundo lá fora estava um caos e acabei deixando esse caos entrar também no meu mundo de dentro.


nesse momento, resolvi parar, voltar ao presente, para observar o mundo ao meu redor. desde seus pequenos ciclos, como as plantas que vejo na varanda da minha casa, até os movimentos dos planetas; suas histórias, as histórias dos que vieram antes de mim e suas lições. e fui percebendo que estava olhando minha vida como uma estrada linear, a qual tentava chegar desesperadamente em uma linha de chegada que não existe. enquanto isso, meu redor tentava me mostrar que a vida é circular e que parar e andar para trás, que deixar morrer o que não faz mais parte de você também faz parte da nossa trilha. 







desde que comecei a perceber esse processo, tento estabelecer um novo significado aos meus dias iguais. enxergo que preciso respeitar esse momento de pausa criativa, ao mesmo tempo em que posso guardar minhas ideias e um dia revisitá-las, convidá-las pra tomar chá e continuar. sem pressa, com amor, com afeto e respeito. ir pra trás pra ir pra frente, como flecha.



Letícia Bernardo

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