• Èlida Aquino

de dentro pra fora — ou sobre processos de criação realmente inclusivos

Atualizado: 26 de Mai de 2019


Há algumas semanas completei a maratona de Coisa Mais Linda, produção brasileira na Netflix que conta (calma, não vai ter muito spoiler) os movimentos de libertação feminina nos anos 60 para um grupo de mulheres com diferentes histórias. Talvez. Calma.


Vamos ver: entre personagens principais temos três mulheres brancas confortavelmente instaladas na Zona Sul, viajadas, alinhadas com o estilo da alta sociedade carioca, resolvendo problemas da vida feminina; uma mulher negra, favelada e doméstica, analfabeta, mãe solteira, que se une ao grupo pelos benefícios e trabalho que podia oferecer, resolvendo problemas relacionados à vida feminina e outras questões sociais que, mesmo sem que ela perceba, recortam seu caminho e o de sua família.


Mais do mesmo? Pois é.


Não vim criticar a obra em si, mas começo com esse exemplo pra compartilhar uma certeza já bastante conversada entre nós, mulheres negras lidando com empreendedorismo, criatividade e inovação: não existe mais espaço para insistir nos mesmos “erros” de representação, nos retratando — e podemos aplicar a mesma lógica à representação de outros grupos, étnicos ou não — como acham que somos, por comodismo e desdobramento dos próprios preconceitos.


Que preguiça ver uma mulher negra sendo mais uma vez mãe solteira, empregada, analfabeta, que não consegue dar uma guinada total na vida mesmo trabalhando tanto quanto as outras...não somos só isso é já está dito pra quem quiser ouvir.


Como melhorar? A única saída viável para não falhar mais com milhões de pessoas que possuem astronômico poder de decisão, compra e opinião (olhando diretamente para a população negra e ainda mais para mulheres negras) é colocando as maiores interessadas no processo de criação.


Vamos lembrar de dados importantes que embasam essa lógica: meses atrás o Instituto Locomotiva, numa pesquisa feita para o Instituto Feira Preta com apoio do Itaú, revelou que a movimentação da população negra em renda própria é de R$ 1,7 trilhão ao ano, mas essa expressiva parcela de 54% da população brasileira continua achando que a representação desejável ainda não chegou.


Sabendo que essa mesma população se torna cada vez mais paramentada intelectualmente, expressiva quando o assunto é influenciador nas redes sociais, ativa na reflexão de sua capacidade e dos desajustes que afetam sua vida, a coisa mais inteligente é ouvir e incluir de verdade.


Não adianta investir em pesquisa ou estudos superficiais, excluindo ou não dando espaço suficiente para quem realmente entende as questões.


Além disso, não adianta trocar saber por produto. Profissionais ou influenciadores negras e negros devem estar dentro dos processos, recebendo de forma justa, como qualquer outra pessoa — já que o mercado também esquece que o know how custa igual quando é negro. Nós sabemos o que fazer. Chamem as principais interessadas pra pensar produtos e comunicação. Abram o espaço, o privilégio da expressão.


Não é difícil encontrar marcas ganhando ao apostar em diversidade na prática. Um exemplo recente foi a Budweiser com um squad poderoso para o Lollapalooza. Por outro lado, não abrir espaço pra essa compreensão pode ser cada vez mais negativo.


Citei a série lá no começo por ter feito uma crítica bastante direta num post do Instagram da Patricia Dejesus — atriz que interpreta a Adélia, personagem negra da série — e a própria atriz viu relevância em destacar a necessidade de outra narrativa. Além de mim, outras como observaram os mesmos pontos de vista.


Olha aqui o repost da Pathy:



Correu na internet o rumor de que Beyoncé se levantou bem chateada, no meio de uma reunião com Reebok, jogando na cara dos presentes que ali não havia ninguém que se parecesse com ela e concluindo no fim que, se não tem ninguém como ela, ela também não se encaixaria ali.


Resultado: Beyoncé fechou logo na sequência com a Adidas e o time alinhado da marca, pronta pra fazer história.


É isso. Entendeu?


Falar corretamente sobre nós ou qualquer outro grupo desencaixado de padrões, do jeito que achamos bacana, recorta diretamente a linha do lucro e sucesso para marcas. Não dá pra caminhar distante disso daqui pra frente.


Não falo sobre isso sozinha e esse post recente da Adriana Barbosa, grande empreendedora negra brasileira, pode provar. Mesmo que esse gap entre representação e a vontade de acolher produtos e serviços coerentes esteja alimentando cada vez mais a inovação entre nós e fazendo o dinheiro circular também entre nossas comunidades (minha lista de negócios negros é gigante e posso compartilhar muitas referências com quem quiser!), a potência da comunicação alcançando a massa ainda está fora de nosso círculo, e nada mais justo e inteligente do que produzirem considerando nossos potenciais.


Pensem nisso. Questão de sobrevivência — pro mercado.

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