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Dança e trabalho: tecendo possíveis

Quando defendi minha dissertação de mestrado em 2014 usei a dança como imagem de interlocução com o mundo do trabalho. Na ocasião escolhi me debruçar sobre o trabalho desenvolvido pelas agentes comunitárias de saúde (ACS) de uma equipe de PACS (Programa de agentes comunitárias de saúde) do município de Cariacia, cidade que pertence a Grande Vitória no estado do Espírito Santo. Meu encantamento pela área da saúde me fez entender junto a elas a importância da atenção primária como forma de garantir a prevenção e promoção da saúde. Essa é a base do nosso Sistema único de Saúde (SUS), tão potente, tão revolucionário e ao mesmo tempo complexo de ser gerido. Minha intenção primeira era mostrar um SUS que dá certo, que extrapola o que é capturado pela grande mídia que ainda insiste em usá-lo de forma sensacionalista preconizando o que falta e não o que transborda, transgride. Minha dissertação pretende honrar a atuação desses profissionais de saúde que na ponta criam a todo tempo estratégias para resistir a falta de investimento e a marginalização da saúde pública desse país, em especial da atenção primária. Em tempos pandemicos sinto que essa discussão ainda se faz fundamental, talvez nunca tenha ficado tão óbvia a importância de discutir sobre os processos de trabalho desses profissionais e sobre a inseparabilidade entres os processos de atenção e de gestão.

Nesse contexto a dança emerge como uma imagem que nos ajuda a compreender a complexidade da gestão diária dos processos de trabalho em que a imprevisibilidade se coloca como uma força que desafia a execução da atividade. O que está prescrito para ser feito não dá conta da realidade de modo que o trabalhador, a todo tempo, precisa criar modos de habitar o mundo do trabalho, estilizando seu fazer, contornando os reveses, criando uma forma singular e coletiva de atuação.

Nesse ínterim, trabalhador e bailarino se encontram, ambos aprendendo a dançar a partir do que os atravessa. Começo minha dissertação contanto uma história de uma das vezes que subi ao palco para dançar:

“Imagine uma bailarina enamorada por uma corda. Ela e a corda são um depois de meses de ensaios exaustivos onde os produtos principais eram calos nas mãos e um enjoo intenso do movimento circular desse encontro. Teatro lotado, no silêncio a cortina vai se abrindo e esse acoplamento (corpo e corda) no meio do palco, em meio ao público inicia-se em uma aventura com grande excitação. Caberia a ela executar os movimentos com perfeição, exaltando o primor da técnica em conexão com a música. Para muitos, o palco é lugar de certeza, mas essa experiência trouxe outras nuances: No início da apresentação a bailarina percebe que o movimento da corda se faz outro da experimentada nos ensaios e o balanço se fez diferente do ritmo esperado. E agora? Se entregar ao movimento ou resistir a ele criando outra coisa? Como operar com outro ritmo? A resposta se deu no corpo, na entrega, na confiança e o comando que vinha era: sinta. A angústia da busca por soluções extremas deu espaço a experimentação do meio.

Assim faz o trabalhador da saúde a quem nomeei na dissertação de agente bailarino que cotidianamente cria modos de atuar no enfretamento dos imprevistos do contexto laboral, desconstruindo certo padrão esperado para a execução da atividade fazendo emergir do encontro com o revés outras possibilidades de ação.

A dança para mim nos ensina a criar movimentos entre a previsibilidade e o inesperado, nos convidando a habitar o presente como uma aposta no fluir da vida. Foi essa a minha experimentação da dança intuitiva que trago nesse registro!



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