• Flávia Akemi

como a quarentena mudou minha relação com a cozinha



Sempre tive uma relação especial com a comida. Amo me reunir à mesa com meus amigos, conhecer restaurantes novos e tenho várias receitas que me lembram pessoas: a salada de batata da minha mãe, o arroz japonês do meu pai, o tomatinho assado da minha amiga… Pratos que quando preparo ou como, me transportam imediatamente para momentos especiais.


Cresci com a ideia de que cozinhar para alguém pode ser uma forma muito bonita de demonstrar carinho - e sempre admirei isso. Acredito que há uma certa mágica no ritual de escolher os ingredientes, prepará-los e entender o tempo e função de cada um deles dentro de uma receita.


Aí veio o coronavírus, o lockdown e tudo que a gente já sabe. Num primeiro momento, cozinhava quase todos os dias e me sentia a própria chef de cozinha. Sabe aquela ideia de que "vou aproveitar o tempo livre para aprender um montão de novas coisas?", então… só quem viveu sabe. Todo dia inventava um prato diferente. Pão caseiro? Sim! Panquequinha? Também. Banana Bread? Vamos! E segui assim por uns dois ou três meses fazendo tudo que era receita da modinha.


Logo veio a exaustão: o cansaço da cozinha e de tudo que estava acontecendo também. Ainda preparava algumas poucas refeições mas me joguei no delivery! Gastei horrores com hambúrgueres, marmitas, sushi e tudo mais que estava em promoção no Ifood. Nessa fase meu corpo sentiu, assim como meu bolso (risos). Descontei todas as minhas frustrações e a falta de perspectiva para o futuro em grandes porções de batata frita.


Dia desses li uma entrevista da Rita Lobo, musa da cozinha prática, para a revista Gama e me identifiquei muito: "Quem começou a cozinhar na quarentena está vendo que não é um bicho de sete cabeças. Não é dom, não é arte, é aprendizado. Você aprende assim como aprende a ler e a escrever. E quem já cozinhava ficou mais tempo na cozinha e descobriu que é também um lugar de refúgio, onde você se blinda do caos externo".


De fato, sempre fui a pessoa que gostava de cozinhar, mas depois desse ano essa relação mudou bastante. Dentro de todos os meus privilégios, acabei encontrando na cozinha um lugar muito importante pra mim. A hora de cozinhar é o momento que paro e presto atenção no que eu estou fazendo, no meio de toda a bagunça do dia a dia. Entendi que com uma rotina cheia de interrupções, a cozinha é onde fico em paz.


Claro que tem dias que a comida vira uma grande gororoba ou que só quero comer um miojinho, né? E também tá tudo bem não gostar de cozinhar, viu? Porém, acho importante entender qual ou quais rituais mantém a gente de pé. Seja cozinhar, fazer ioga ou cantar no chuveiro, em períodos tão difíceis como o que estamos vivendo, pequenos hábitos podem ser o porto seguro num mar agitado e cheio de turbulências.