• melgurgel

atenção, moçada

“Um programa de rádio a dois. Uma mulher e um homem, uma voz feminina e outra masculina. Uma espécie de pingue-pongue, mas, em vez da bolinha amarela, há um microfone.” assim é a descrição do programa de rádio “pingue pongue” e eu não teria como descrever melhor esse encontro entre Matilde Campilho e Tomás Cunha Ferreira.


Matilde é poeta, portuguesa e construiu suas memórias entre Lisboa e Rio de Janeiro, onde foi visitar e acabou morando por três anos. Tomás é músico e artista plástico, não fica para trás com o seu amor pelo Brasil, aqui foi onde ele passou boa parte da sua infância. Tamanho amor é visto nas escolhas das músicas brasileiras para compor o programa


O jogo entre a Matilde e o Tomás é antigo, desde 2015 eles falam de amor e música, relembram o som do mar, se encantam com a luz de Lisboa, e apresentam achados e conhecidos nas noites de domingo, das 23 até as doze badaladas da noite de Lisboa.



Canções, filmes, poemas, lembranças, declarações, atualidades, futuro, passado, tudo pode ser uma bolinha para Matilde e Tomás jogarem sua partida.

O meu encanto já começa pelos títulos dos programas: “ainda é agosto”,”verão na cara”, “verso, batuque, desejo”, “semear e estar atento’, “olhos de sol”, “vem, vamos juntos, os dois”, “ a dançar é que se brilha”.


A descrição de cada episódio é feita pelos apresentadores e o spoiler vale a leitura.

São belezas como:

Ainda estamos aqui. Não fomos embora para lugar nenhum. E apesar de um de nós dois ter passado uma temporada longa do outro lado do Atlântico, nunca parámos de nos frequentar. Por via da voz, por via do olfacto universal e eterno, por via do coração. Nós dois ainda acreditamos muito na via do coração, e ainda estamos aqui. Continuamos fazendo o nosso trabalho, juntos, e o nosso trabalho é executado de mangas arregaçadas e pés na terra. A terra é que sabe. Apesar da constipação generalizada do planeta, apesar do terror que tenta por tudo entranhar-se em nossas casas, nós aqui ainda confiamos muito na saúde. Na alegria. Na coragem, na oração, no cântico e na memória. E por falar em memória, neste programa do último domingo nós abrimos a coisa com uma canção a Nanã. Venham a nós as entidades, venha a nós a água toda. Nós ainda estamos aqui. Trouxemos o cuore di Pablito, o azul de Elton John, a flor de Chico César. Pulámos com o índio e aprendemos com ele, contámos as coisas boas com Ella Fitzgerald, reparámos no amarelo dos dias e no vermelho das camisas. A terra é que sabe. E a esperança, essa, não morre nunca. Foi o Pingue Pongue desta semana, Prosa Impúrpura, aqui


As canções transitam das chamas da Califórnia para o asfalto britânico passando pela Bahia de Caetano Veloso, atravessando as rachaduras de Leonard Cohen e encontrando um poema de Sophia Mello Breyner. A escolha das músicas é tão surpreendente quanto Elis Regina cantando Beatles no episódio “wild thing” de 5 de setembro.


Na voz de Matilde, eu quase consigo ver as chamas da guitarra de Jimi Hendrix, que ela descreve maravilhada. Entre um verso e outro, Tomás solta uma informação curiosa que é inevitável não anotar para pesquisar depois. Esse é um tipo de programa que tem que ser ouvido, com os dois ouvidos atentos e com o coração preparado.


A narrativa dos dois portugueses me faz lembrar que nós ainda estamos em movimento, que cada mar tem seu azul e que nosso sangue dança através de nós. Fiz a difícil escolha de selecionar 5 dos meus episódios favoritos.


ep. doublets de 28 de novembro de 2021

ep. pela luz de 22 de agosto 2021

ep. mais uma para a estrada de 26 de maio de 2019

ep. água de 16 de abril de 2017

ep. arquitectura de 26 de março de 2017


Todos os 329 episódios estão disponíveis para serem ouvidos no site da RTP2