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Amar começa na palavra

Há quem acredite que no princípio era o verbo. Eu não sei. Mas sei que tudo começa na palavra. Sem ela, qualquer experiência seria um completo vazio de significado - de eus, de outros e de nós. Uma palavra materializa mundos. Uma palavra é a menor distância entre dois universos. Como quase nunca andam sozinhas, um coletivo de palavras causa uma rebelião. E um coletivo de coletivos de palavras… é literatura.


Os livros regem os meus humores e amores em cada fase da minha vida. Ainda criança, meu pai me deu um dos conselhos mais valiosos possíveis: nada acolhe como uma palavra certa. Nenhum juiz é tão imparcial diante do que sentimos quanto uma página. Se quiser rir, se quiser chorar, o seu verdadeiro amigo é o livro. E assim eu o fiz e faço.


Como sempre fui mais de ralar o coração do que o joelho, eu passava os recreios da escola e todas as oportunidades de tempo livre mergulhada em histórias dos mais diversos tipos. E, ao contrário do que possa parecer, minhas memórias relacionadas à leitura não são nada solitárias - e sim sobre as pessoas que cruzaram o meu caminho por entre as linhas.


Para começar, não poderia ser diferente: meu pai. Meu pai talvez seja o maior exemplo de leitor que eu tive. Desde criar histórias comigo enquanto me dava banho, até inventar vozes engraçadas para cada personagem dos livros que lia para mim antes de dormir. E me levar em livrarias. E em sebos. E em feiras de livros, como a Primavera dos Livros e a Bienal. E conversar sobre todo tipo de livro que lia - inclusive os romances adolescentes de vampiro. Meu pai sempre foi muito mais descolado que eu.


Com a minha vó, eu aprendi que as palavras curam. Quando eu ficava doente, ela aparecia com livros que tinham feito sucesso quando minha mãe era mais nova - lembro até hoje de "Tuchita faz novela", do Pedro Bloch. Além disso, outra tradição eram os bilhetinhos: vovó me deixava um bilhete para cada livro que lia emprestado da minha estante, dando um parecer do que tinha achado. Tenho guardados até hoje.

 
 

Minha mãe é uma mulher muito ativa e nem todo tipo de leitura consegue prendê-la. Assim, com ela, eu aprendi que palavras também são diversão e conhecimento: costumávamos montar incontáveis palavras-cruzadas antes de dormir. E a lógica do "só mais um capítulo" também se aplica aqui, já que virávamos noites tentando lembrar a primeira capital de Sergipe ou "o que se reserva para ocasião oportuna".


Uma vez que falei da família de sangue, a literatura também me deu uma família escolhida, uma rede de laços de amantes das páginas. Ainda na escola, eu adorava as bibliotecárias e professoras de português, com as quais trocava opiniões sobre os livros que eu achava mais legais de serem abordados e para quais turmas. Fiz muitas colegas por gostos em comum, parceiras de incontáveis idas a noites de autógrafos, lançamentos e que me mantinham atualizadas de tudo, nos primórdios do Skoob e dos Booktubers. 


A personificação de "gente fina" eu conheci com os livreiros. Das imagens mais caricatas às mais normais, não poderia deixar de mencionar aqui o outro lado do balcão. Me ensinaram que o texto é um bom pretexto para prosa.


O mundo como vejo e sinto é o mundo moldado por tudo que me atravessa. Sou o que sou pelas pessoas ao meu redor. Mas também sou o que sou pelas palavras de Clarice, Lygia, Kundera, Vargas Llosa, Maya, Benedetti e tantos outros. A cada leitura, palavras invisíveis são escritas em nossa palma da mão - e basta uma linha para não sermos mais os mesmos. A literatura atua nesse fio delicado e vital que chamamos de encantamento. A vida começa na palavra. Amar começa na palavra. E  #TudoComeçaNaLivraria.

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