• Helena Gusmão

2020 DE ISOLAMENTO E REFLEXÃO

ENQUANTO PESSOAS MORRIAM, A GENTE TEVE TEMPO DE FICAR EM CASA SE AUTOAVALIANDO. QUEM SERÁ SEU NOVO "EU" AO SAIR DESSE ANO PARA O MUNDO?





Perdemos a conta de quantos dias de quarentena foram necessários - para quem, no caso, respeitou. Chegamos nos mais de 5 milhões de infectados por Coronavírus. Ultrapassamos 150 mil mortes. E esses números continuam aumentando a cada dia. Relatos sobre ansiedade e depressão nunca foram tão presentes. Sentimento de preocupação já que não se consegue planejar muito bem o futuro. Fora aquela perguntinha: “Será que sou assintomático?", quem nunca? Então, 2020 foi o pior ano de todos? Talvez, não. Talvez, 2020 tenha dado certo sim, só ainda não estamos prontos pra essa conversa. Como assim? Te explico!


2020 nos colapsou e levou a um redirecionamento! Sabe quando você está em um relacionamento tóxico/abusivo e, finalmente, consegue sair? Descobre o quão ruim estava sendo pra você e decide mudar o rumo da sua vida? Novos propósitos, hábitos, pensamentos, atitudes, uma nova pessoa. Você não quer voltar para aquela fase na qual viveu os últimos anos e faz de tudo para evitar que isso aconteça. E é exatamente isso! Esse ano está nos permitindo recomeçar uma nova versão, para nós e para os outros. Refletir, repensar, reagir, refazer! Que no alto dos nossos privilégios, o poder ficar em casa, tenha sido para repensar quem somos e o que fazemos como pessoas para melhorar e atuar no coletivo.


Muitas pessoas não puderam se proteger e ficar em casa. Precisaram continuar saindo e trabalhando para conseguir sustentar a família. Algumas tiveram suas casas invadidas por policiais, que entraram atirando e matando. Outras não possuem o tempo para refletir sobre possíveis mudanças, porque estão preocupadas em sobreviver. E sabemos qual é a raça e situação social dessas pessoas. Por isso, diante do meu privilégio e bolha como mulher branca, digo: branquitude que ficou em casa esses meses se cuidando e tendo tempo para pensar, quais estão sendo e serão suas atitudes para mudar as estruturas desta sociedade doente que estamos vivendo para além das postagens nas mídias? Como você vai usar do seu dinheiro, acessos e privilégio para dar espaço à pessoas negras, LGBTQI+, indígenas, gordas? Sim! Usem do tempo de vocês para também pensar e agir sobre isso. E se ainda não fizeram, vocês estão atrasados!


Entendeu-se que não se quer mais influenciadores rasos, para falar apenas de lookinhos e como ser fitness. O querer é por conscientização e posicionamentos claros! Política, social, racial. Percebeu-se, finalmente, que quem é colocado no poder pode desgraçar em muitos degraus a vida de uma nação e que a força do conjunto pode causar destruição (afinal de contas, Bolsonaro está no poder) ou movimentações rumo à mudança. Teve mulher negra ganhando um dos maiores reality shows da televisão, assim como machismo e feminismo sendo discutidos nesse veículo que se comunica com a massa. Tiveram manifestações contra o racismo acontecendo no mundo todo. O aumento na conscientização política, cobrando governantes sobre seus atos. Somos maioria contra um governo genocida e autoritário. Portanto, não podemos simplesmente cancelar 2020. Foi um ano fatídico para renascimentos e redescobertas de quem somos e para onde queremos ir, porque, hoje, sabemos exatamente o que não queremos. Um ano com a oportunidade de quebrar todos os padrões repetidos durante séculos de opressões e preconceitos. Podemos sair dele muito mais maduros e conscientes! Mas, se não nos cuidarmos, muito mais doentes também.


Dessa forma, com todas as oscilações vivenciadas, diariamente, o que você tem feito para se manter são? Uma outra descoberta que fiz nesse período de isolamento é que o autocuidado é uma estratégia política. O bem estar não é um privilégio, é um direito e cada pessoa sabe do que precisa. Nem dinheiro, nem tempo deveriam ser fatores limitantes. Se cuidar, física e mentalmente, deve ser visto como uma ação estratégica. Ninguém luta ou muda uma situação se estiver morto, doente ou mentalmente cansado.


Por isso, cuide-se! Se possível, desconecte-se o máximo que puder. O "slow content" tá mais forte do que nunca. E não é ficar alienado, mas consumir notícias em menos momentos do seu dia. Beba água! Alimente-se bem! Tenha pausas de cinco minutos no seu dia apenas para respirar e relaxar um pouco a cabeça. Mantenha sua casa arrumada! Isso mesmo. O lar arrumado transmite paz e ajuda a diminuir a ansiedade. Exercite mente e corpo! Tenha uma rede de apoio para desabafar e trocar nos momentos mais difíceis. Mesmo que virtualmente, mantenha contato com quem ama. Esses têm sido alguns dos hábitos que me ajudaram a passar por esses dias.


E saiba: vai ter dia que você vai se sentir na bad. Sem vontade de levantar da cama, de fazer nada. Produtividade zero. E TÁ TUDO BEM! Respeite seu tempo! Se conseguir, tire esse dia pra ficar quietinha na sua. Deixe cair pra levantar. Não somos máquinas que funcionam à todo vapor. Somos corpo, mente e coração, que nem sempre batem segundo o ritmo que desejamos. No mais: reflita! Era preciso parar. Era urgente que parássemos para repensar e redirecionar hábitos, atitudes, mercados, sistemas, estruturas sociais e econômicas.


Não adianta sair uma pessoa melhor de tudo isso se não for para levar mais pessoas com você! O bem-estar não pode ser seletivo. Que sua autoavaliação tenha sido para te melhorar como ser humano atuante no coletivo.



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